
A FESTA DE BABETTE
Um conto sobre uma refeição inesquecível, uma comunidade puritana e uma cozinheira misteriosa se transforma, nas mãos do autor, em uma poderosa parábola da Eucaristia: graça infinita, sacrifício total e reconciliação servidos à mesa, onde o céu se aproxima da terra em forma de banquete.
Rafael Andrade Filho
8/2/2026
Em “A Festa de Babette”, conto de Isak Dinesen que inspirou este famoso filme, encontramos uma das representações literárias mais ricas do mistério da Eucaristia. A narrativa se passa numa vila remota à beira de um fiorde dinamarquês, no fim do século XIX, onde vive uma pequena comunidade luterana marcada por rígido puritanismo. As irmãs Martine e Philippa, filhas de um pastor venerado, presidem o grupo: comem de forma extremamente simples, vivem com austeridade e acreditam que qualquer prazer terreno atrapalha o caminho para a Jerusalém celeste. Recusam inclusive o amor humano e o casamento, para manter um ideal de amor “puramente espiritual”.
Nesse contexto fechado e dualista entra Babette, uma refugiada francesa recomendada pelo cantor de ópera Achille Papin, antigo admirador de Philippa. Vinda da sofisticada cultura culinária de Paris, ex-chefe do famoso restaurante Café Anglais, mas reduzida à condição de mendiga, Babette se humilha, aprende a cozinhar o insosso cardápio local e vive por doze anos como simples criada. Esse auto-esvaziamento evoca o hino cristológico de Filipenses: assim como Cristo, que “esvaziou-se a si mesmo” e assumiu a condição de servo, Babette, embora fosse uma grande chef do Café Anglais, aceita viver escondida, servindo silenciosamente e, pouco a pouco, colocando as coisas em seus devidos lugares.
Quando se aproxima o centenário do nascimento do velho pastor, as irmãs querem marcar a data de forma especial, mas o clima na comunidade é de divisão: velhas brigas, mágoas e incapacidade de perdoar. Nesse momento, Babette recebe uma inesperada carta da França avisando que ganhou dez mil francos na loteria. Em vez de usar o dinheiro para recomeçar a vida, pede às irmãs para preparar, em honra do Decano, um verdadeiro jantar francês, pago integralmente por ela. Assustadas com a ideia de luxo e “extravagância”, elas resistem, mas acabam cedendo. Quando começam a chegar vinhos raros e iguarias finíssimas, os fiéis se apavoram e decidem: por caridade comerão o que for servido, mas não falarão da comida nem admitirão qualquer prazer.
O banquete acontece num domingo e tem todos os traços simbólicos de uma liturgia. Os convidados iniciam cantando hinos compostos pelo pastor; depois entram num salão iluminado por velas, com a mesa preparada quase como um altar. À medida que Babette serve vinhos finíssimos e pratos sublimes – reconhecidos apenas pelo general Loewenhielm, seu velho frequentador no Café Anglais – algo surpreendente ocorre: corações se abrandam, antigas rixas são esquecidas, ofensas são perdoadas, amizades são restauradas. O general, movido por uma espécie de inspiração, faz um discurso sobre a graça infinita de Deus, que não é limitada, não exige nada além de confiança e gratidão e proclama uma “anistia geral”. A casa parece encher-se de uma luz quase celestial, como se o tempo se abrisse para a eternidade.
Enquanto os convidados saem sob a neve, embriagados de alegria, reconciliação e paz, a narrativa nos leva à cozinha, onde vemos o preço de tudo isso: Babette, exausta, sentada no cepo entre panelas engorduradas, revela enfim quem é: a antiga chef do Café Anglais. E diz, sem drama, que já não tem dinheiro algum, pois gastou toda a fortuna do prêmio no jantar. Como Cristo na Última Ceia, que oferece o próprio corpo e sangue, Babette não dá apenas um serviço; ela se dá totalmente. A comunhão, a festa e a cura interior daquela comunidade só foram possíveis porque alguém aceitou “subir ao altar” do sacrifício, consumir seus bens, talentos e energia em favor dos outros.
Isak Dinesen, assim, acaba articulando uma poderosa parábola eucarística. O jantar de Babette refaz, em chave literária, o grande tema bíblico do banquete sagrado: o festim prometido por Deus em Isaías, a mesa de Jesus aberta a todos, o pão e o vinho que, na Última Ceia, se tornam presença real de Cristo. Contra o dualismo puritano da vila, que separa radicalmente Deus e mundo, espírito e corpo, o conto mostra a visão sacramental: o criado – comida, bebida, beleza, prazer legítimo – pode ser veículo da graça. Ao entrelaçar banquete, sacrifício e presença real da doadora, “A Festa de Babette”, nas devidas proporções, se torna uma imagem da Eucaristia: um Deus que se esvazia, prepara o banquete e se deixa consumir, para que seus convidados descubram que a graça é infinita e que o céu começa à mesa da Eucaristia.


