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COMO FAZER UMA CORREÇÃO FRATERNAL (Ez 33,7-9)

ARTIGOSLITURGIA DIÁRIAPREZ

Rafael Andrade Filho

Sobre a Primeira Leitura deste Domingo:
“EU TE ESTABELECI COMO VIGIA...” (Ez 33,7-9)

Paz e Alegria de Jesus! Amigos, a liturgia deste domingo nos apresenta um tema muito importante e, ao mesmo tempo, delicado: a correção fraterna.
Vivemos, hoje, uma situação curiosa: a mesma sociedade que rejeita qualquer juízo moral vive mergulhada em críticas duras, impacientes e destrutivas. Neste ambiente, a pergunta cristã que devemos nos fazer é: minha correção nasce da caridade ou da vontade de estar certo? Ela constrói ou apenas expõe?

A primeira leitura, do profeta Ezequiel, apresenta o chamado que Deus faz ao profeta: “Eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel.” A imagem é forte. O vigia é aquele que permanece atento, não por curiosidade, mas porque se importa com o que está sendo vigiado.
E Deus indica que a missão de vigiar significa advertir o irmão quando este se afasta do bem: “Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os deves advertir em meu nome” - e o Senhor acrescenta - “Se não lhe falares, advertindo-o a respeito de sua conduta, eu te pedirei contas da sua morte.”

Essa palavra nos recorda que o nosso silêncio pode se tornar cumplicidade. Quando vemos alguém se perdendo espiritualmente, somos chamados a agir e a corrigir o irmão.
E por que corrigimos? Corrigimos porque o amor não é indiferente ao destino do outro. A Escritura não trata a vida moral como se fosse apenas uma questão de preferência pessoal: “eu tenho meus valores, você tem os seus”. Essa mentalidade relativista pode parecer tolerante, mas, muitas vezes, termina em indiferença.

Para a fé bíblica, o bem e o mal não dependem simplesmente do gosto de cada um. Há uma verdade sobre o ser humano. Há um caminho que conduz à vida e há caminhos que conduzem à morte espiritual.

Por isso, quando Deus diz a Ezequiel: “Eu te estabeleci como vigia”, Ele está recordando que não podemos assistir passivamente à ruína do irmão. Pelo Batismo, todo cristão participa da missão de Cristo. Também nós somos chamados, de algum modo, a ser vigias uns dos outros, como um irmão mais velho que vigia seus irmãos menores.

Mas é preciso entender bem: ser “vigia” não significa ser fiscal da vida alheia. Ser vigia significa cuidar. Significa amar o irmão o suficiente para não o abandonar quando ele se perde.
Ao mesmo tempo, essa responsabilidade precisa ser vivida com muita humildade. Antes de corrigir alguém, deveríamos nos perguntar: “Estou falando por amor e preocupação sincera com meu irmão, ou apenas porque o comportamento dele me incomoda?”

Essa pergunta muda tudo. Nem tudo o que nos desagrada é pecado. Nem toda diferença de opinião exige correção. Nem todo incômodo pessoal é sinal de zelo pela verdade. Às vezes, confundimos o desejo de defender o bem com a vontade de impor nosso modo de pensar. Confundimos amor à verdade com vontade de vencer uma discussão.

Por isso, a correção fraterna começa antes de tudo no coração de quem corrige. Talvez uma boa pergunta para o exame de consciência ao fim do dia seja: “Hoje eu fui crítico demais com os outros? E, quando critiquei, minha crítica foi realmente construtiva?”

Essa pergunta é especialmente importante em tempos de redes sociais, onde é tão fácil transformar indignação em exposição pública, e tão difícil procurar o irmão em particular como nos indica o Senhor, no Evangelho.

Por isso, a correção fraterna exige:
- Verdade, para não tratar o mal como se fosse bem;
- Caridade, para buscar sinceramente o bem do irmão;
- Humildade, porque também precisamos ser corrigidos;
- Prudência, para saber quando e como falar;
- Discrição, para não transformar cuidado em exposição;
- Perseverança, para não desistir do irmão;

E, principalmente, exige a oração, porque só Deus pode tocar profundamente o coração humano. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles.” (Mt 18,20). Quando a palavra já não alcança, a oração continua alcançando e vai mais longe. Quando a conversa não produziu fruto imediato, a intercessão ainda é uma forma concreta de amor.

Assim, a liturgia deste domingo nos conduz por uma bela progressão. Em Ezequiel, Deus nos mostra por que corrigir: porque existe o bem verdadeiro que é o próprio Deus; e em torno dele somos todos irmãos e responsáveis uns pelos outros. No Evangelho, Jesus nos mostra como corrigir: começando pelo encontro pessoal, com discrição, humildade, paciência, verdade, perdão e desejo sincero de reconciliação.

A primeira leitura nos tira da indiferença. O Evangelho nos livra da dureza.

E as duas coisas são necessárias. Ser cristão não é vigiar o outro para condená-lo. É cuidar do outro para que ele não se perca.

E você: já precisou corrigir alguém — ou acolher uma correção — sem perder a caridade?

Texto de Rafael Andrade Filho, do Instituto Dei Verbum

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