
DEUS E O MISTÉRIO DO SOFRIMENTO
ISARTIGOSLITURGIA DIÁRIAPR
Rafael Andrade Filho
Há momentos em que a nossa fé parece enfrentar uma contradição difícil: Se Deus está tão perto de nós, por que permite que passemos por sofrimentos que não conseguimos compreender?
A primeira leitura, retirada do capítulo 55 do profeta Isaías, começa com um convite:
“Buscai o Senhor enquanto ele se deixa encontrar, invocai-o enquanto está perto” (Is 55,6).
Deus está perto. Não é indiferente à nossa vida. Não é uma força distante, perdida em algum lugar do universo. O profeta Isaías chega a apresentar Deus com uma imagem de extraordinária ternura:
“Por acaso uma mulher se esquecerá da sua criancinha de peito? [...] Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me esqueceria de ti. Eis que te gravei nas palmas das minhas mãos” (Is 49,15-16).
Essa é uma das verdades mais consoladoras da fé: Deus não nos abandona. Ele nos conhece, sustenta-nos e permanece presente mesmo quando não conseguimos perceber sua presença.
Mas há outra verdade, igualmente importante: Deus é o criador e não pode ser comparado com nenhuma criatura. Isaías pergunta:
“A quem poderíeis comparar Deus? Que semelhança poderíeis encontrar nele?” (Is 40,18).
Deus está intimamente próximo de tudo, ao mesmo tempo, é inteiramente outro. 𝗘𝗹𝗲 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗽𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗱𝗲 𝗻𝗼́𝘀 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗼́𝘀 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗼𝘀, mas é infinitamente superior a tudo o que podemos imaginar.
É justamente aqui que a leitura toca o problema do sofrimento.
“𝗦𝗲 𝗗𝗲𝘂𝘀 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗽𝗿𝗼́𝘅𝗶𝗺𝗼, 𝗽𝗼𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗲𝗿𝗺𝗶𝘁𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘂 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗲 𝗽𝗼𝗿 𝗲𝘀𝘀𝗲 𝘀𝗼𝗳𝗿𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼?”
Esta é a pergunta de quem recebe um diagnóstico difícil, de quem perde alguém amado, de quem vê um filho sofrer, de quem enfrenta uma injustiça ou atravessa um período de silêncio interior.
A resposta de Isaías não é uma explicação detalhada para cada sofrimento. O profeta transmite uma verdade mais humilde e mais profunda, na voz de Deus:
“Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos [...] Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos...” (Is 55,8-9).
Mas será que isso é apenas uma maneira religiosa de fugir da pergunta?
Não. Deus está nos dizendo que não podemos compreender tudo. E dizer que não compreendemos tudo não significa dizer que nada tem sentido. Significa reconhecer a diferença entre a nossa inteligência limitada e a sabedoria infinita de Deus.
Quando tinha dois anos de idade, minha filha precisou ficar internada por 15 dias no hospital, para receber muitos procedimentos médicos dolorosos e assustadores.
Certo dia, enquanto o médico realizava um procedimento, eu a segurava junto ao peito. Ela olhou-me nos olhos como se perguntasse:
“Por que você está fazendo isso comigo?”
Até então, ela conhecia o meu carinho de pai. Sabia que normalmente estava ali para brincar com ela, protegê-la e consolá-la. Mas, naquele momento, tudo parecia contraditório. Como alguém que a amava podia permitir que ela sentisse dor?
Eu gostaria de explicar: “Confie em mim. Isso é necessário para o seu bem.” Mas ela não compreendia uma explicação desse tipo. Havia uma diferença radical entre a sua capacidade de compreender e o meu conhecimento da situação.
A comparação é limitada. Mas a imagem ajuda a perceber algo: muitas vezes, a nossa incapacidade de compreender o sentido do que estamos passando não significa que Deus esteja ausente ou que tenha deixado de nos amar.
Um pai pode saber por que uma cirurgia é necessária, mas a criança talvez só consiga experimentar a dor, o medo e a confusão. O pai não está distante. Pelo contrário: está justamente ao lado dela.
Assim também, diante do sofrimento, precisamos evitar duas conclusões opostas:
A primeira é imaginar que Deus está ausente porque não compreendemos seus caminhos.
A segunda é afirmar, com facilidade cruel, que sabemos exatamente por que nós ou determinada pessoa está sofrendo.
Nós não sabemos tudo. E essa confissão não é covardia. É humildade.
Mas há algo que sabemos com certeza: Deus não permaneceu distante da nossa condição humana. Em Jesus Cristo, o Filho de Deus entrou na nossa história, assumiu a nossa carne, conheceu a dor, a rejeição e a morte.
O Evangelho nos mostra que a proximidade de Deus não é apenas uma ideia: ela tem um rosto, uma voz e um nome.
Jesus Cristo é a prova de que Deus não olha para o sofrimento humano de longe. Ele se aproxima, acompanha, sofre conosco e abre, pela ressurreição, um caminho de esperança.
Talvez hoje você não consiga compreender o que está vivendo. Talvez a pergunta continue sem resposta. A fé não exige que finjamos que a dor não existe nem oferece explicações fáceis para feridas profundas.
A fé nos convida a confiar naquele que é mais íntimo de nós do que nós mesmos e, ao mesmo tempo, infinitamente maior do que os nossos pensamentos.
Deus está perto. E, em Cristo, aquele que está acima de tudo se fez próximo de nós até o fim.
𝗤𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗻𝗮̃𝗼 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗿𝗲𝗲𝗻𝗱𝗲𝗺𝗼𝘀 𝗼𝘀 𝗰𝗮𝗺𝗶𝗻𝗵𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝗗𝗲𝘂𝘀, 𝗮𝗶𝗻𝗱𝗮 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗺𝗼𝘀 𝗽𝗲𝗿𝗺𝗮𝗻𝗲𝗰𝗲𝗿 𝗲𝗺 𝘀𝘂𝗮𝘀 𝗺𝗮̃𝗼𝘀.
Texto de Rafael Andrade Filho, do Instituto Dei Verbum


