a man standing in front of a church alter

𝐏𝐄́𝐒 𝐍𝐎 PÉS NO 𝐂𝐇Ã𝐎 𝐄 𝐎𝐋𝐇𝐎𝐒 𝐏𝐀𝐑𝐀 𝐎 𝐀𝐋𝐓𝐎: 𝐀 𝐍𝐀𝐓𝐔𝐑𝐄𝐙𝐀 𝐂𝐎𝐌𝐎 𝐂𝐀𝐌𝐈𝐍𝐇𝐎 𝐏𝐀𝐑𝐀 𝐃𝐄𝐔𝐒.

Rafael Andrade Filho

Outro dia, eu refletia sobre o 𝐜𝐨𝐧𝐡𝐞𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐃𝐞𝐮𝐬 𝐚𝐥𝐜𝐚𝐧𝐜̧𝐚𝐝𝐨 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐫𝐚𝐜𝐢𝐨𝐜𝐢́𝐧𝐢𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐞 𝐝𝐨 𝐞𝐟𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐚 𝐜𝐚𝐮𝐬𝐚.

Como diz São Paulo em 𝐑𝐨𝐦𝐚𝐧𝐨𝐬 𝟏,𝟐𝟎:

“Desde a criação do mundo, o eterno poder e a divindade de Deus, embora invisíveis, têm sido compreendidos e vistos por meio das coisas criadas”.

O Concílio Vaticano II faz referência a essa passagem quando afirma, na 𝐃𝐞𝐢 𝐕𝐞𝐫𝐛𝐮𝐦:

“Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza a partir da realidade criada, à luz da razão humana (cf. Rm 1,20)”.

E o Doutor Seráfico, 𝐒𝐚̃𝐨 𝐁𝐨𝐚𝐯𝐞𝐧𝐭𝐮𝐫𝐚, afirma igualmente em A Jornada da Mente para Deus:

“Quem não se ilumina com tamanho esplendor nas coisas criadas é cego; quem não se volta para o Primeiro Princípio depois de tantos sinais é tolo” (Cap. 1, n. 15).

Ao refletir sobre este assunto, comecei a me perguntar se haveria alguma conexão entre essa verdade e o fato de o 𝐚𝐭𝐞𝐢́𝐬𝐦𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐞𝐜𝐞𝐫 𝐬𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐮𝐦 𝐞𝐦 𝐚́𝐫𝐞𝐚𝐬 𝐮𝐫𝐛𝐚𝐧𝐚𝐬 𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐦 𝐚́𝐫𝐞𝐚𝐬 𝐫𝐮𝐫𝐚𝐢𝐬.

Nas grandes cidades, a maior parte do que as pessoas encontram em seu dia a dia é 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐨 𝐡𝐨𝐦𝐞𝐦: prédios, ruas, automóveis, computadores etc. Assim, raciocinando da causa para o efeito, o próprio homem parece ser a fonte primária do que existe. Trata‑se, evidentemente, de uma visão muito limitada, mas que, ainda assim, constitui uma experiência existencialmente forte para muitos que nasceram e permanecem nas grandes cidades.

Compare-se isso com pessoas que vivem 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐨́𝐱𝐢𝐦𝐚𝐬 𝐝𝐚 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐞𝐳𝐚 e que podem até ser bastante dependentes do clima, das estações do ano e dos animais: muito do que elas encontram não é obra do homem, mas grande parte da 𝐜𝐫𝐢𝐚𝐜̧𝐚𝐨 𝐝𝐞 𝐃𝐞𝐮𝐬. Portanto, pode ser mais fácil para elas terem uma compreensão mais intuitiva da existência do Criador. A observação de pássaros em seu habitat, por exemplo, traz à mente imediatamente as palavras de Jesus — “𝐎𝐥𝐡𝐚𝐢 𝐨𝐬 𝐩𝐚́𝐬𝐬𝐚𝐫𝐨𝐬 𝐝𝐨 𝐜𝐞́𝐮…” (Mt 6,26) — e se torna um sinal concreto da 𝐩𝐫𝐨𝐯𝐢𝐝𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐝𝐢𝐯𝐢𝐧𝐚, que cuida de cada criatura e, com muito mais razão, de cada um de nós.

𝐉𝐨𝐬𝐞𝐩𝐡 𝐑𝐚𝐭𝐳𝐢𝐧𝐠𝐞𝐫 / 𝐁𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐗𝐕𝐈 já havia feito comentários semelhantes em 1961:

“Na história da humanidade, o encontro com a natureza sempre foi um dos pontos de partida mais importantes da experiência religiosa. [...] Em todas as culturas anteriores, o homem vivia em estreita e direta dependência da natureza. Na maioria das ocupações que lhe eram acessíveis, ele era conduzido a um encontro direto e franco com a natureza em si. Isso mudou consideravelmente desde o avanço da tecnologia.”

Ecos desta preocupação estão no documento recente da 𝐂𝐨𝐦𝐢𝐬𝐬𝐚̃𝐨 𝐓𝐞𝐨𝐥𝐨́𝐠𝐢𝐜𝐚 𝐈𝐧𝐭𝐞𝐫𝐧𝐚𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥 (𝐂𝐓𝐈), Quo Vadis, Humanitas? (*Refletindo sobre a Antropologia Cristã diante de Certos Cenários para o Futuro da Humanidade*), que afirma:

“Nossa relação com o meio ambiente é modificada pela realidade sintética, ou melhor, pelo artificial, que permeia todas as áreas da vida, desde a alimentação, passando pelo espaço habitacional (urbanização)... A expansão do mundo artificial, com materiais não encontrados na natureza, como plástico, aço e concreto, torna nossa relação com a natureza e suas leis mais fluida e indeterminada, podendo criar a ilusão de que somente a liberdade humana, baseada no poder transformador da tecnologia, oferece uma relação correta com o mundo real. [...] Não é a natureza, com suas leis e limitações, que regula e direciona o desenvolvimento [...] mas sim o potencial tecnológico.”

Assim como os efeitos da 𝐑𝐞𝐯𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐈𝐧𝐝𝐮𝐬𝐭𝐫𝐢𝐚𝐥, a 𝐫𝐞𝐯𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐭𝐞𝐜𝐧𝐨𝐥𝐨́𝐠𝐢𝐜𝐚 𝐞 𝐝𝐚 𝐈𝐀 também ameaça prejudicar a relação da humanidade com a natureza e, por meio dela, com o Criador.

Na Magnifica Humanitas, histórica encíclica papal de maio de 2026, o 𝐏𝐚𝐩𝐚 𝐋𝐞𝐚̃𝐨 𝐗𝐈𝐕 faz exatamente este paralelo histórico com a encíclica Rerum Novarum (1891), que abordou os excessos da industrialização no século XIX. O pontífice alerta que, se no passado a máquina a vapor ameaçou subjugar o trabalhador, hoje a 𝐫𝐞𝐯𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐝𝐢𝐠𝐢𝐭𝐚𝐥 𝐞 𝐨𝐬 𝐚𝐥𝐠𝐨𝐫𝐢𝐭𝐦𝐨𝐬 𝐚𝐮𝐭𝐨̂𝐧𝐨𝐦𝐨𝐬 colocam em xeque a própria essência e a dignidade humanas. Ele destaca que a IA “𝐭𝐞𝐫𝐚́ 𝐮𝐦 𝐢𝐦𝐩𝐚𝐜𝐭𝐨 𝐚𝐢𝐧𝐝𝐚 𝐦𝐚𝐢𝐨𝐫 𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐚 𝐑𝐞𝐯𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐈𝐧𝐝𝐮𝐬𝐭𝐫𝐢𝐚𝐥”.

Diante do perigo atual, muitos de nós faríamos bem em “𝐜𝐨𝐥𝐨𝐜𝐚𝐫 𝐨𝐬 𝐩𝐞́𝐬 𝐧𝐨 𝐜𝐡𝐚̃𝐨” com mais frequência do que fazemos atualmente. Incentivar nossos filhos a se desconectarem da internet, brincarem ao ar livre e apreciarem a natureza é apenas uma das maneiras de ajudá-los a 𝐬𝐞 𝐫𝐞𝐜𝐨𝐧𝐞𝐜𝐭𝐚𝐫𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐦𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐫𝐞𝐚𝐥 𝐞 𝐚 𝐬𝐞 𝐝𝐞𝐢𝐱𝐚𝐫𝐞𝐦 𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚𝐫 𝐩𝐨𝐫 𝐞𝐥𝐞, para que a realidade virtual não tenha um impacto maior do que a realidade concreta.

Lembro-me de um esquete antigo, mas engraçado, da Nickelodeon, que está no vídeo abaixo:

É claro que não penso que “pôr os pés no chão” seja a única coisa necessária para recuperar a conexão com o Criador. No entanto, neste mundo secular, 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐚𝐣𝐮𝐝𝐚 𝐞́ 𝐛𝐞𝐦-𝐯𝐢𝐧𝐝𝐚.

Com o passar dos anos, passei a valorizar mais o impacto que 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐞𝐦𝐩𝐥𝐚𝐫 𝐛𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐩𝐚𝐢𝐬𝐚𝐠𝐞𝐧𝐬 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐢𝐬 pode ter na vida espiritual. Para tornar essas experiências ainda mais profundas, 𝐜𝐨𝐦𝐛𝐢𝐧𝐚𝐫 𝐨 𝐭𝐞𝐦𝐩𝐨 𝐧𝐚 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐞𝐳𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐨𝐫𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐥 pode aumentar nossa apreciação pela bondade da criação e pela sabedoria e amor daquele que nos deu tudo.

Texto de Rafael Andrade, do Instituto Dei Verbum

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