
QUANDO O AMOR DE DEUS ENCONTRA NOSSA RESPOSTA (Is 5, 1-7)
ISARTIGOSLITURGIA DIÁRIAPR
Rafael Andrade Filho
Sobre a Primeira Leitura deste Domingo (Is 5, 1-7)
Paz e Alegria de Jesus!
“Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu: Um amigo meu possuía uma vinha em fértil encosta.” (Is 5,1)
A imagem da vinha é um clássico da tradição de Israel. Isaías nos apresenta uma espécie de canção de amor entre o dono da vinha e sua plantação — mas uma canção que ressalta a exigência do amor.
O dono escolhe uma encosta fértil, prepara cuidadosamente o terreno e remove as pedras, num trabalho árduo e demorado. Planta as melhores videiras, constrói uma torre para vigiar a vinha, prepara um lagar para a colheita e ergue uma cerca para protegê-la.
Ele faz tudo o que pode para cultivar e cuidar da vinha. E, por isso, espera que ela dê bons frutos.
Essa é uma imagem do Senhor Deus em relação a Israel. Todo esse trabalho evoca as muitas maneiras pelas quais Deus cultivou seu povo: as Escrituras, a Lei, as alianças, os patriarcas, os profetas, o Templo e seus rituais. E, acima de tudo, o grande ato de libertação pelo qual Deus tirou Israel do Egito.
Deus compartilhou seu coração com esse povo e preparou para ele uma vinha fértil.
Mas a imagem toma um rumo sombrio. Quando chega para colher, o dono encontra apenas “uvas bravas” — ou, como alguns biblistas interpretam: “uvas que cheiram mal”. O fato é que uvas “bravas” são azedas, impróprias para fazer um bom vinho.
Apesar de todo o cuidado, a vinha não deu o fruto esperado. Deus deu seu coração ao povo, mas o povo não respondeu.
Em termos católicos, tudo é graça. A graça vem primeiro: Deus derrama sobre nós seu amor imerecido. Mas somos chamados a cooperar com ela. A graça, por si só, não garante uma colheita abundante; nossa resposta também é necessária.
Mas essa história não diz respeito apenas ao antigo Israel. São Paulo chama a Igreja de Novo Israel.
Pensemos nos sacramentos, na Missa, na Eucaristia, no exemplo dos santos e no ensinamento do papa. São maneiras pelas quais Deus continua cultivando sua vinha: preparando a terra, removendo as pedras e construindo proteção.
Mas, quando vier para a colheita, encontrará bons frutos ou uvas bravas?
A resposta depende de nossa cooperação com a graça. Depende, em outras palavras, da nossa vida espiritual. Os Evangelhos nos lembram repetidamente que não podemos tratá-la com indiferença.
Podemos esperar que todos sejam salvos? o Catecismo ensina que a Igreja, na esperança, reza pela salvação de todos. Essa esperança se apoia na misericórdia e na graça de Deus, mas não é uma certeza despreocupada.
Santo Tomás de Aquino diz: “Só esperamos aquilo que é difícil”. Espero que todos possam ser salvos; mas serão todos salvos? Não sei, e não estou em posição de afirmar.
Então o cristão não pode abdicar da sua vida espiritual e de cooperar com a graça de Deus. Muito menos, a Igreja pode abandonar o sobrenatural pelo social.
Então a pergunta prevalece: O que Deus encontrará quando vier colher os frutos da minha vida, dentro da Igreja que cultivou de tantas maneiras? E que Igreja encontrará?
Isaías descreve o que acontece com a vinha que não dá frutos:
“Vou tirar a sua cerca para que sirva de pasto, derrubar o seu muro para que seja pisada. Farei dela um lugar devastado: não será podada nem lavrada, e nela crescerão espinhos e abrolhos” (Is 5,5-6).
Não devemos ler isso como se Deus estivesse tomado por um acesso de raiva, como um pai disfuncional. Trata-se de uma espécie de física espiritual: quando cooperamos com a graça, florescemos; quando a recusamos e nos fechamos em nós mesmos — o que Santo Agostinho chamou de incurvatus in se —, a vinha cultivada acaba em ruína.
Quando os fiéis se afastam da Missa, da Eucaristia, da reconciliação e se concentram no material, há aí um forte sinal de falta de cooperação com a graça. E o que acontece? A vinha se deteriora — a vinha da Igreja e a vinha que cada um de nós carrega dentro de si.
A imagem de Isaías é bela: mostra o cuidado de Deus por seu povo. Mas não é uma graça barata nem um amor frívolo. É um amor que chama e pede uma resposta espiritual.
Quando o amor divino encontra a cooperação humana, floresce essa grande vinha.
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Texto de Rafael Andrade, do Instituto Dei Verbum
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Referências bíblicas: Is 5,1-6; Rm 11,1-5.
Referência teológica: Santo Tomás de Aquino, sobre a esperança como desejo de um bem difícil; Santo Agostinho, incurvatus in se.


